O Brasil faz bonito em Milão

MILÃO (Itália) - Todos os anos, quando chega a primavera, a cidade de Milão, na Itália, vira o centro mundial do design. É quando acontece o Salão Internacional do Móvel de Milão, onde batem ponto os maiores criadores do planeta, sempre com novas - e, em geral, caras - soluções para mesas, cadeiras, sofás, luminárias, tudo, enfim, que pode fazer uma casa ficar mais bonita. Observatório das tendências do que vai ser quente dali em diante, o salão atrai também uma série de eventos paralelos. É gente interessada em tirar uma casquinha - legítima - dos holofotes que Milão costuma atrair. O Brasil está nessa. Desde 1995, uma vez a cada dois anos, acontece a mostra Brasil faz design, que tem como objetivo apresentar o que de melhor se produz por aqui.

Durante seis dias, a partir da próxima quarta-feira, 75 objetos de 66 participantes brasileiros entrarão em cena no Instituto Cultural Brasil-Itália, no Centro de Milão. Sete anos atrás, quando o evento aconteceu pela primeira vez, ficou um certo gosto amargo na boca. Um visitante italiano, cruel, escreveu no livro de presença: ''É como vender gelo no Pólo Norte''. A sentença poderia até ser entendida sob dois aspectos: um bom (no Brasil faz-se design tão bem quanto na Europa) e outro, mais provável, ruim (não há identidade na produção verde-e-amarela, tudo não passa de cópias). Seja como for, o que se pretende mostrar este ano em Milão está dentro de uma perspectiva de produção industrial - e não só artesanal.

As peças da edição 2002 do Brasil faz design foram selecionadas entre 800 trabalhos inscritos. A curadoria do crítico de arte Fábio Magalhães e da designer Marili Brandão, dona da empresa paulista Volátil, organizadora do evento, procurou apostar na idéia de que design e indústria podem e devem caminhar juntos. Coisa que, lá fora, já é comum. Mas que, aqui, ainda engatinha. Entre os designers tidos como Top Ten na mostra, há gente que persegue essa dobradinha design-indústria e também aqueles cujo trabalho ainda é desenvolvido de maneira artesanal.

Formado em Desenho Industrial na UFRJ e radicado em São Paulo, o designer Fernando Jaeger joga no primeiro time. Para Milão, está levando duas peças inéditas. A cadeira Olívia, em madeira certificada, de concepção simples e inteiramente desmontável, e a Luminária Bienal, uma esfera de plástico usada em iluminação, com aplicações de tubinhos de PVC coloridos. Segundo Jaeger, esse projeto é uma resposta à alta tecnologia empregada no exterior e ainda inexistente no Brasil. ''Ou você fica de braços cruzados ou vai lá, come, digere e transforma. Ou seja, tem de ser na base da antropofagia'', decreta o designer, que, pela quarta vez, participa do Brasil faz design.

A experiência recente de outro participante da mostra, o designer paulista Valter Bahcivanji, 44 anos, endossa a afirmação de Jaeger. Sua luminária Dois Pontos, de chão, que estará na Itália, vem fazendo bonito no exterior. Foi o único produto brasileiro incluído na edição 2001 do catálogo inglês de circulação mundial 'Designer Year Book'. ''O inédito é que explorei a luz da base. Todas as pesquisas que andei fazendo indicam que este é um conceito novo, ainda não explorado.'' Bahcivanji faz coro com os companheiros de profissão. Ele não se vê criando produtos exclusivos para o usufruto de poucos. ''O caminho do design brasileiro é o produto barato como o pãozinho e o sabonete.''

É outro o caminho do carioca Guto Indio da Costa. Em geral, seu escritório cria os projetos cujas patentes são vendidas a fabricantes. Aos 32 anos e formado há menos de 10, ele vem garantindo presença na lista dos 10 mais das últimas três edições da mostra brasileira. Guto - que faz questão de dividir os méritos com a equipe de 15 profissionais de seu escritório - defende com convicção a participação da classe em mostras como a Brasil faz design. ''Quem não aparece constantemente, some'', diz ele.

Diferentemente do grupo de ''veteranos'', este ano o Brasil faz design será a estréia, como profissional, do paulista Pedro Paulo Santoro, 24 anos. Na edição de 2000, ainda como estudante da Faculdade de Belas Artes de São Paulo, ele foi premiado com a poltrona Orbital - feita de câmaras de pneus entrelaçadas revestidas de lycra. No ano seguinte, levou outro prêmio, o da Associação Brasileira de Indústria de Móveis, com a espreguiçadeira Macunaíma, em madeira certificada e látex. ''O maior acontecimento do designer é estar expondo em Milão, durante o Salão do Móvel. Pode ser garantia de um espaço na mídia especializada'', diz Santoro.

E foi o que aconteceu. A espreguiçadeira ganhou espaço na Abitare, revista italiana especializada em design, e a poltrona, na concorrente Interni. Além disso, por conta da participação na mostra de 2000, o jovem designer foi convidado para a mostra Abitare il tempo, em Verona. Ex-aluno dos irmãos Campana, Santoro vai comparecer na edição atual da mostra com outro projeto de cadeira: a poltrona Supernova, feita de alumínio reciclado e rebatedor de lycra usada por fotógrafos. ''É uma cadeira conceitual que usa diferentes materiais e dá a eles outra utilidade'', explica o dono da idéia.

Já a dupla Orlando Facciolli, 32 anos, e M.C. Flora, 33, do escritório Nuts Design, são debutantes de fato. ''É nossa primeira participação, pois nossa praia é o design gráfico'', diz Orlando. O projeto que assina com sua sócia é a luminária Orange Lemon. Em polipropileno, ela já circula pelo mercado há uns dois anos e custa R$ 55 (também é vendida em Lisboa e brevemente irá para Washington). ''A mostra é uma abertura para o mercado, ainda que tímida. O design brasileiro é meio complicado, tanto para a produção quanto para a distribuição'', diz Orlando. É uma situação que pode estar mudando.


Jornal do Brasil
05/Abril/2002