A intervenção do design está transformando o artesanato brasileiro, na medida em que agrega qualidade e valor às peças que ganham competitividade e conquistam o mercado internacional. As mudanças também se refletem na recuperação da identidade cultural das comunidades que vivem desse tipo de trabalho e na melhoria da qualidade de vida dos artesãos. Reunidos em associações e cooperativas, os artesãos das mais diversas tipologias fortalecem a atividade, que na segunda metade da década de 90, passou a ser, efetivamente, um negócio rentável, gerador de ocupação e renda.
Na visão do consultor mexicano Lars Diederichsen, da empresa Terra Design, apesar da intervenção do design no artesanato ser um fenômeno relativamente novo, é uma importante ferramenta para a inovação dos produtos e o fortalecimento das técnicas e tradições.
“A base fundamental do trabalho do designer é preservar a identidade cultural do produto, mesmo que sejam grupos de artesãos recém-formados”, explica o consultor, lembrando que existem grupos com traços culturais muito fortes e que ao invés do design intervir, deve traçar uma estratégia de inserção dos produtos através da comunicação visual e da própria embalagem.
“As formas de intervenção têm que ser feitas com muito respeito à cultura local”, explica Lars, que participou do “Seminário Design na Palma da Mão”, promovido pela Rede Potiguar de Design até último sábado, no Auditório do Sebrae, em Natal.
O consultor atua há oito anos na área de design, fazendo intervenções desde o artesanato de origem indígena até o artesanato conhecido como urbano, que já perdeu muito de sua identidade cultural. “O artesanato indígena é cheio de cultura e tradição, enquanto o urbano é bem mais complicado porque necessita de um trabalho muito grande de busca dessa identidade e de encontrar os ícones locais para aplicar nestes produtos”, compara.
Para trabalhar com grupos mais tradicionais, como rendeiras e o próprio artesanato indígena, cuja técnica é herdada dos antepassados, é preciso valorizar e respeitar suas tradições. Segundo Lars Diederichsen, o foco do designer é mais voltado para a qualidade e a produtividade, sem necessariamente ter que desenvolver um produto novo.
“O nosso papel é fazer com que o mercado perceba este produto de forma diferente”, resume, lembrando que o trabalho na tipologia de fibras é muito desvalorizado, em função da oferta de cestas industrializadas, provenientes de Taiwan e China por preços que chegam até R$ 1,99 com baixa qualidade.
A valorização dos produtos em fibras naturais, por exemplo, deve ser feita através da melhoria da qualidade e produtividade, valorizando as matérias-primas e tingimentos naturais, buscando uma melhor remuneração para o artesão. É o associativismo que garante uma maior força produtiva para a atividade artesanal, mas o artesanato não pode ser visto como um produto de massa. “O produto artesanal é diferenciado, porque tem um valor cultural e histórico embutido nele”, afirma Lars, lembrando que é necessário promover a valorização destes produtos nos mercados que se pretende atingir, sobretudo no mercado externo para não adotar os processos de produção industrializados, como as peças produzidas nos países asiáticos, por exemplo.
A capacitação dos artesãos é imprescindível para garantir a qualidade e a produtividade, visando garantir uma quantidade mínima de peças para atender ao mercado. “O Sebrae tem uma atuação muito importante na atividade do artesanato, que já mudou a vida de muitas pessoas. Eu acho que esta importância não se limita à questão econômica, mas, sobretudo ao aspecto cultural e da identidade destas comunidades, que resgataram a auto-estima do artesão melhorando o seu convívio social e o orgulho de dizer que é artesão, como um médico ou advogado se orgulha da sua profissão”, conclui.